01abr

Psicologia da Amamentação

Adoro esse texto e vale a pena lembrar!

PSICOLOGIA DA AMAMENTAÇÃO

 

Por mais que se façam campanhas incentivando o aleitamento materno, algumas questões que dificultam o sucesso nessa empreitada devem ser discutidas para que possamos entender porque ainda hoje tantos fracassos rondam a amamentação. Qualquer mãe falará, sem sombra de dúvida, sobre a importância desse tema. Não há quem questione a obviedade da preferência pela forma natural de alimentação do bebê até, pelo menos, seis meses de idade. Também sabemos que as maternidades estão muito voltadas para o apoio à parturiente e costumam ser enfáticos no apoio neste momento. Por que ainda vemos tantos problemas com a amamentação: Podemos elencar alguns empecilhos e soluções.

Insistir com a gestante que a amamentação é um ato amoroso de extrema importância é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, incentiva e valoriza os atributos da mãe, por outro, cria uma pressão na forma de expectativa, dando a entender que a mãe que não conseguiu amamentar teve dificuldades em amar seu bebê, sendo uma mãe “menos generosa”, menos mãe etc. Este tipo de enfoque também parte do pressuposto de que a amamentação não requer aprendizado e que basta querê-lo. Assim, a mãe que não supera as dificuldades deste tipo de alimentação, “não quis o bastante”. Pressupõe, esta abordagem puramente romântica, que não há o que ensinar, é tudo natural.

Primeiro, precisamos pensar que o homem sempre viveu em comunidade, desde os tempos primitivos e que a tradição oral dava conta de transmitir o aprendizado de geração em geração sendo a cultura inteiramente interativa, ou seja, mães e bebês não estavam isolados e uma mulher muito antes de dar à luz conhecia todo o desenrolar da procriação, pois participava do parto e puerpério das outras mães da comunidade. Havia uma tecnologia sim, da amamentação, e ela era passada entre as mulheres no convívio social. Hoje em dia, nem os cuidados básicos consigo mesmo são transmitidos dentro da família que, por si só, é isolada dos demais. Quantas pessoas (para não dizer mulheres) aprenderam a cozinhar com seus pais? A transmissão do conhecimento costuma ser acadêmica e o espaço de troca desapareceu. Cada casal tem o seu bebê sem contar com a ajuda da comunidade: temos babás, enfermeiras, psicólogas, médicas etc. Não é incomum que o primeiro bebê a ser cuidado por um casal seja o seu próprio. Muitos homens carregaram pela primeira vez um bebê quando nasceu o seu! Incentivar a amamentação sem ensinar “macetes” é uma forma de abandono à própria sorte e pode gerar ansiedade, o que, por sua vez, tende a atrapalhar o processo. Amamentação deve ser ensinada e facilitada.

Outra questão refere-se à transição entre a gestação e o puerpério. O primeiro modelo de cuidado que a mãe tem é gestacional, quer dizer, para a parturiente nada do que ela fizer se compara à plenitude da gravidez. Isso tem dois aspectos: num ela não se dá conta de que foi capaz de gerar outro ser humano com seus próprios recursos corporais e, portanto, não atribui a si a potência suficiente para cuidar do bebê fora da barriga. Num caso extremo, a mãe se vê impotente diante da tarefa, pois está alienada do seu papel fundamental até então.

Noutro lado, ela pode reconhecer a magnitude de seu desempenho e tem como modelo nada menos do que a satisfação plena que era capaz de proporcionar ao bebê. Neste caso, existe uma dificuldade de sair do modelo onipotente da gestação. Em ambos os casos, o que se procura é reafirmar a potência da gestação e valorizar o puerpério, ajudando a gestante a abandonar o primeiro modelo de cuidado onipresente, ou seja, fazer a completa transição para cuidado fora do útero.

Outra questão que atravessa tudo que diz respeito ao humano é a cultura. Não podemos pensar em amamentação como algo “natural”, porque não somos seres simplesmente regidos pelo biológico. Como nos aponta ALMEIDA (1999): “A amamentação, além de ser biologicamente determinada, é socioculturalmente condicionada, tratando-se, portanto, de um ato impregnado de ideologias e determinantes que resultam das condições concretas da vida”. Assim, cada grupo social ira incentivar ou não a lactação em função de questões históricas e sociais. Quando nos vemos frente a dificuldades no aleitamento, temos que nos ocupar com uma anamnese que pesquise fatores culturais e familiares daquela dupla de mãe e bebê. Expectativas, fantasias, ideário familiar (desempenho das outras mulheres da família ou meio social). Algumas mulheres se vêem diante da desconcertante tarefa de superar suas próprias mães que, muitas vezes, fracassaram e tendem a desestimulá-las evitando que se frustrem como elas mesmas.

Devemos ter em mente que tudo o que acontece à dupla mãe/bebê envolve os aspectos da subjetividade e da díade, sua intersubjetividade, o corpo de ambos e o contexto sociocultural e histórico. Falar de amamentação é falar de relacionamento humano e deve ser encarado em suas múltiplas facetas.

Muitas são as questões que atravessam os cuidados com a amamentação e não podemos nos eximir de nossas responsabilidades no apoio efetivo para o bom desempenho dessa importantíssima tarefa.

 

Vera Iaconelli

 

Referência bibliográfica

ALMEIDA, João Aprígio Guerra de. Amamentação: um híbrido natureza-cultura. Ed. Fiocruz, Rio de Janeiro, 1999.

 

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