01nov

A lactância selvagem

Esse é um dos meus textos preferidos quando se fala em amamentação. E, como estou sem tempo de dar o gás que esse blog precisa pra iniciar com o pé direito, vou postá-lo para que não pensem que esqueci desse espaço. Ele foi escrito pela famosa psicoterapeuta e escritora argentina Laura Gutman que, aliás, tem vários outros textos e livros imperdíveis sobre os mais variados assuntos no campo da maternidade.

——-
A lactância selvagem (Laura Gutman)

A maioria das mães que consultam por dificuldades na lactância estão preocupadas por saber como fazer as coisas corretamente, em lugar de procurar o silêncio interior, as raízes profundas, os vestígios de feminidade e um apoio no companheiro, na família ou na comunidade que favoreçam o encontro com sua essência pessoal.

A lactância genuína é manifestação de nossos aspectos mais terrenais, selvagens, filogenéticos. Para dar de mamar deveríamos passar quase o tempo todo nuas, sem largar a nossa criança, imersas num tempo fora do tempo, sem intelecto nem elaboração de pensamentos, sem necessidade de defender-se de nada nem de ninguém, senão somente sumidas num espaço imaginário e invisível para os demais.Isso é dar de mamar. É deixar aflorar nossos rincões ancestralmente esquecidos ou negados, nossos instintos animais que surgem sem imaginar que ainda estavam em nosso interior. E deixar-se levar pela surpresa de ver-nos lamber a nossos bebês, de cheirar a frescura de seu sangue, de chorrear entre um corpo e outro, de converter-se em corpo e fluidos dançantes.

Dar de mamar é despojar-se das mentiras que nos contamos toda a vida sobre quem somos ou quem deveríamos ser. É estar “desprolixas”, poderosas, famintas, como lobas, como leoas, como tigresas, como “canguruas”, como gatas. Muito relacionadas com as mamíferas de outras espécies em seu total afeiçoo para a criança, descuidando ao resto da comunidade, mas milimetricamente atenciosas às necessidades do recém nascido.

Deleitadas com o milagre, tratando de reconhecer que fomos nós as que o fizemos possível, e reencontrando-nos com o que tenha de sublime. É uma experiência mística se nos permitimos que assim seja.

Isto é tudo o que se precisa para poder dar de mamar a um filho. Nem métodos, nem horários, nem conselhos, nem relógios, nem cursos. Mas sim apoio, contenção e confiança de outros (marido, rede de mulheres, sociedade, âmbito social) para ser uma mesma mais do que nunca. Só permissão para ser o que queremos, fazer o que queremos, e deixar-se levar pela loucura do selvagem.

Isto é possível se se compreende que a psicologia feminina inclui este profundo afinco à mãe-terra, que o ser uma com a natureza é intrínseco ao ser essencial da mulher, e que se este aspecto não se põe de manifesto, a lactância simplesmente não flui. Não somos tão diferentes aos rios, aos vulcões, aos bosques. Só é necessário preservá-los dos ataques.

As mulheres que desejamos amamentar temos o desafio de não nos afastar desmedidamente de nossos instintos selvagens. Costumamos raciocinar, ler livros de puericultura e desta maneira perdemos o eixo entre tantos conselhos pretensamente “profissionais”.

Há uma idéia que atravessa e desativa a animalidade da lactância, e é a insistência para que a mãe se separe do corpo do bebê. Contrariamente ao que se supõe, o bebê deveria ser carregado pela mãe o tempo todo, inclusive e sobretudo quando dorme. A separação física à que nos submetemos como rotina entorpece a fluidez da lactância. Os bebês ocidentais dormem no moisés ou no carrinho ou em seus berços demasiadas horas. Esta conduta singelamente atenciosa contra a lactância. Porque dar de mamar é uma atividade corporal e energética constante. É como um rio que não pode parar de fluir: se se o bloqueia, desvia seu volume.

Dar de mamar é ter o bebê a colo, o tempo todo que seja possível. É corpo, é silêncio, é conexão com o submundo invisível, é fusão emocional, é loucura.

Sim, há que ser um pouco louca para maternar.

21out

Sete razões para NÃO conseguir amamentar

Há tantas coisas que você precisa ter sucesso e que não tem nada a ver com o bebê. Quando pessoas me questionam porque apoio a amamentação, eu quero gritar- VEJA PORQUE!
1. Não confiamos em nossos corpos A maioria das mulheres podem produzir leite, leite suficiente para alimentar seu bebê e até gêmeos. Com tantos pediatras obcecados com o ganho de peso do bebê e usando curvas de crescimentos errados para bebês amamentados (usam curvas para bebês que tomam LA que ganham mais peso), é suficiente que mães se sintam terríveis porque estão matando seus filhos de fome (oh, a culpa!!).
2. Não há apoio para o início da amamentação Quanto antes você colocar seu bebê no peito após nascer, melhores as chances de sucesso na amamentação. Você pode ainda conseguir amamentar se não amamentar seu RN logo que nascer, mas quanto mais apoio da equipe do hospital para amamentar na primeira hora, melhor. Se o hospital tiver especialistas em amamentação, use seus serviços. Sério, mesmo que ache que é uma expert em amamentação, peça sua ajuda.

3. Maridos são desencorajadores Se teu marido é do tipo que vai preparar uma mamadeira no minuto que você começar a reclamar de seios doloridos, você não vai ter sucesso (na amamentação e possivelmente no casamento). O sistema de apoio em casa é vital para o sucesso.

4. Família não apoia Você não mamou no peito e está aí, vivinha da silva —reconhece essa frase? Até essas palavras vindo de sua mãe podem ser desencorajadoras (mesmo que ela não tenha má intenções). Se você escolheu amamentar, todos a sua volta devem escolher aceitar sua escolha e apoiá-la.

5. Amigos não entendem Quando você se torna uma mãe, sua vida social muda. Se você amamenta, muda mais ainda. Ter amigos que apoiam e entendem que você não vai poder beber caipirinhas e terá somente poucas horas livres antes que tenha que voltar para casa e amamentar e ainda consigam ser seus amigos são grandes amigos e não só amigos, mas grandes apoios.

6. Empregos não acomodam Alguns empregos tem zero apoio e isso é uma dificuldade enorme para ordenhar no ambiente de trabalho. Banheiros não devem ser usados como sala de ordenha, mas frequentemente são. Mães que trabalham fora precisam de apoio para conseguirem continuarem a amamentar quando retornam ao trabalho e a única maneira que conseguiremos isso é exigindo melhores condições e conseguindo parceiras para que todos entendam a importância da amamentação. Não consigo fazer uma piada aqui pois a culpa que a mãe sente quando retorna ao trabalho é muito grande.

7. A comunidade dificulta muito. Toda semana temos casos de mãe impedidas de amamentar em público. Eu não faço piadas das peças horrorosas de moda que vejo na rua, então me faça a mesma gentiliza… se você não gosta, olhe para outro lado (e troque essa camisa horrível).

Algumas pessoas vêem as mães que amamentam como um monte de estúpidas cheias de complexos porque têm seios lactantes. Ou então eles falam, “Ninguém amamentou seus filhos na minha família e todo mundo está vivo.”

Bem, sabe de uma coisa? Mulheres não tinham direito de votar, e agora temos. Então… as coisas mudam. Se você está se perguntando porque as mães que amamentam fazem tanta ‘campanha’, é porque não há apoio suficiente lá for a para aquelas que desejam amamentar. Não é porque nos consideramos superiors as mães que escolhem não amamentar, é porque precisamos de apoio (e não somente porque nossos seios são mais pesados).

Você tem um bom sistema de apoio? Você apoia amamentação entre mulheres que conhece?

Fonte: http://thestir.cafemom.com/baby/111186/7_reasons_you_wont_succeed
Tradução: Andréia Mortensen

23jul

Por que amamentação?

Para inaugurar esse espaço, pensei em falar justamente de inícios, despertares, de como tudo começou… muitas pessoas me perguntam o porquê desse envolvimento com a amamentação, com a humanização no atendimento à gestante e puérpera, de onde surgiu esse interesse e porque enveredei por esse caminho. Aqui contarei então um pouco dessa história.

Quando minha filha Júlia nasceu, há 5 anos, eu percorri um longo caminho. Um caminho repleto de informações, descobertas e muita, muita procura. A procura por um profissional que respeitasse minhas decisões e, principalmente, as levasse em conta. Que fosse capaz de prestar um atendimento humanizado e que não me tratasse como mais uma. Nesse caminho, busquei estar munida daquilo que considero mais importante em todo processo da minha vida: INFORMAÇÃO. Cheguei ao trabalho de parto preparada, informada, sabendo como se desenrolaria aquele processo, e aquilo certamente me deixou mais tranqüila e segura. É claro que continuou a ser emocionante, inesperado, assustador, como toda 1ª experiência, mas tenho certeza de que estar bem informada e bem acompanhada resultou no parto dos meus sonhos.

Para a amamentação, a história foi um pouco diferente. Acompanhei uma aula no meu curso de yoga, li algumas revistas, sites… mas na hora H, simplesmente não aconteceu. Eu tinha uma ilusão, e sei que é uma ilusão de muitas gestantes – por isso a importância de se colocar isso aqui – de que seria tudo automático, impulsivo. Bebê nasceu, veio pro colo, abocanhou o seio e glup, glup, glup, mamando… aquela cena linda, de filme, de novela, a mãe ali, plena, feliz e o bebê sendo alimentado, engordando a olhos vistos. Pois nada disso aconteceu… na sala de parto minha filha não quis o peito. Pensei, “tudo bem, acontece, já li em muitos relatos”, mas a hora foi passando e eu ia me deparando com a dificuldade de amamentá-la. Botava a Júlia ao seio, encostava e nada dela pegar. Às vezes conseguia, mas na maioria só ficava ali olhando. Chamei no próprio hospital uma enfermeira que nunca apareceu. Na hora da alta, minha filha tinha finalmente conseguido dormir, então dispensei a ajuda da pediatra pois não queria acordá-la depois de uma noite inteira em claro chorando. E assim fui pra casa, sem lenço, sem documento, com uma linda ruivinha que nasceu a termo, perfeita, mas sem saber mamar.

Depois da 2ª noite sem conseguir amamentar ou dormir – e, é claro, sem dar o braço a torcer e comprar mamadeira ou leite artificial – resolvi qual seria o primeiro passeio da vida da minha filha: vamos ao Banco de leite do IFF! Que bom que em meio aos devaneios do pós-parto eu tive essa brilhante idéia! Juntamos a mega-bolsa, bebê, marido, babá, carrinho e fomos lá, em nosso primeiro passeio em busca de uma orientação. E então… teve início essa história, pois além da orientação, que resultou em uma linda história de amamentação, ganhei também uma profissão. Pois naquele momento, renasceu a psicóloga que estava adormecida dentro de mim, e ali descobri a minha vocação. Eu, que nada sabia, parti em busca de uma formação pois me vi ali, naquele lugar, ajudando e orientando muitas e muitas mães.

E agora estou aqui, apta a reproduzir este conhecimento, atendendo mães que, como eu, precisam de um empurrãozinho pra escrever uma linda história. Porque amamentação é prazer, é saúde, é vínculo, é um super poder do qual nós, mamíferas, podemos e devemos usufruir. Então não deixe de pedir ajuda, pois o caminho pode ter alguns obstáculos mas, com o apoio correto, podemos todas percorrê-lo sem maiores dificuldades!

Neste espaço pretendo falar semanalmente sobre diversos assuntos ligados à maternidade, amamentação, pós-parto, humanização e muitos outros, não deixe de nos acompanhar!